Esta gaivota que vai
Seguindo o navio.
Este céu que despreza a morte.
Esta luz, este rio.
Tudo num sonho que apenas
foi desenhado
para eu aprender de novo
a viver a teu lado.
Vento no rosto
e tanto sol nos meus braços
tanto sol que depois te cerca
a travar os teus passos.
Tudo num sonho
que foi assim desenhado
para tu começares de novo
a viver a meu lado.
Dentro de nós, temos nós
de seguir a lição
desta luz que a manhã
nos oferece novamente.
Dentro de nós vai o mundo
tornar-se canção
é preciso que tudo
comece novamente.
Tudo num sonho
que apenas foi desenhado
para eu aprender de novo
a viver a teu lado.
Tudo num sonho
que foi assim desenhado
para tu começares de novo
a viver a meu lado.
David Mourão Ferreira e Nóbrega e Sousa
Respirar
(Calema e Sara Correia)
Sou que nem água solta no chão
Danço nas asas de um furacão
Esta é a minha casa, sigo o destino
Eu sou a estrada, eu sou, eu sou, eu sou
Viver da luz da vida e dar-lhe um nome
Fugir da confusão que nos consome
Não é preciso muito mais
Do que um minuto a olhar o céu e respirar
Respirar, eu vou, respirar, eu vou
Respirar, eu vou, peito aberto (eu vou)
Seja onde for, eu vou levar amor
No meu respirar
E se pensarmos
Que vivemos juntos este tanto com tão pouco
Pelas mãos do vento faz-se unir o mundo todo
O mesmo ar, a noite e o dia
Respirar, eu vou
Respirar, eu vou
Respirar, eu vou, respirar, eu vou
Respirar, eu vou, peito aberto
Seja onde for, eu vou levar amor
(No meu respirar)
Trazer todos os dias de manhã a melodia
E encher o nosso peito de amor no amanhecer, oh-oh
A vida deu-me tanto sem cobrar e eu nem sabia
Agora eu sei que para agradecer
Respirar, eu vou, respirar, eu vou
Respirar, eu vou, peito aberto, oh-oh
Seja onde for, eu vou levar amor
No meu respirar (eu vou, eu vou)
Fazer da paz uma morada, peito aberto
Ai, que boa vida, dançar este refrão a cada dia
Na vida, eu sou a estrada
Eu sou a estrada, eu sou a estrada…
Ouve aqui: https://www.youtube.com/watch?v=g4VqkkUqx4c
(…) Quero recomeçar, digo. Autorizo-me isso a mim próprio? Esse gesto cortante, novo, criador, esbarra com uma série de programas. Eu já não sou o programador, mas o programado, sou o plano de uma aplicação para mim; estão a correr uma série de funções onde eu só funciono, não sou. Em que botão recomeço?
Enquanto os outros se aplicavam em complicados desenhos, ele fez um círculo, um círculo apenas, pincel e vermelho sobre o branco, uma espécie de sangue. “É só isso?”, perguntou o homem. “É tudo o que é necessário”, respondeu o pintor. O círculo da minha vida, a multidão – a legião – de programas onde me aplicam: sou eu? Ou uma função de mim, útil a não sei quem quando ou quem quê, cerca a roda dos meus dias?
O homem agarrou nos elaborados desenhos feitos pelos outros pintores, e naquele desprezadamente no outro papel, o do círculo vermelho apenas. Levou-o ao Papa, que dentre todos escolheria um novo pintor para trabalhar em Roma.
Voltar já não serve. Listas de alterações, promessas secas num papel que não enviarei a mim mesmo, não. Voltar é voltar a, repetição. Há programas que fazem isso por mim. Quero ser eu a começar, a começar-me. Faço isso agora ou deixarei que o círculo feito por instrumentos de outros me cerque tanto até que me controle?
Ao ver o círculo, “uma maravilha a contemplar”, desenhado sem nenhum instrumento, o Papa não hesitou: era aquele pintor que queria. Ele mesmo: Giotto.
Cada minuto é meu; cada gesto é orgânico. Em cada respiração crio e levo para dentro de mim, entregando à origem, o ar que me deu. Eu sou eu próprio uma árvore: raízes na terra, pulmões da terra para o céu, braços para tocar no firmamento. Inspiro para deixar a minha marca, para trazer o infinito em cada inspiração, e devolvê-la nova ao ar vivo.
“Construir um eremitério portátil dentro de cada um de nós”, escrevia o imperador austríaco Francisco I. Quero encontrar aí o ponto onde eu começo. Onde eu desenho com o meu sangue o meu caminho; onde sou o co-criador de mim mesmo.
O pintor desenhou o seu início. Abriu o universo, entregou-o: e criou.
Deixa o mundo girar
(Pólo Norte)
Quantas vezes vais olhar para trás
estás preso a um passado que pesou
quantas vezes vais ser tu capaz
fazer sair quem por engano entrou
Abre a tua porta
não tenhas medo
tens o mundo inteiro
à espera para entrar
de sorriso no rosto
talvez o segredo
alguém que te quer falar
Olha em frente e diz-me
aquilo que vês
reflexos de quem conheces bem
ouve essa voz, é a tua voz
dá-lhe atenção e a razão que tens
Abre a tua porta
não tenhas medo
tens o mundo inteiro
à espera para entrar
de sorriso no rosto
talvez o segredo
alguém que te quer falar
Deixa o mundo girar para o lado que quer
não o podes parar nem tens nada a perder
estas de passagem,
não o leves a mal se te manda avançar
talvez seja o sinal que não podes parar
estás de passagem
Vai aonde queres
ser quem tu quiseres
estende a tua mão
a quem vier por bem,
Abre a tua porta
não tenhas medo
tens o mundo inteiro
à espera para entrar
de sorriso no rosto
talvez o segredo
alguém que te quer falar
Refrão
Só de passagem
estou de passagem
para outro lugar
Otimismo Interior
Se pudéssemos escolher o nosso ambiente e se, nos empreendimentos humanos, o desejo fosse sinónimo de capacidade, suponho que todos seríamos otimistas. Certamente, a maioria de nós considera a felicidade como o verdadeiro fim de tudo aquilo que fazemos nesta vida. A vontade de ser feliz anima igualmente o filósofo, o príncipe e o varredor de chaminés. Por mais limitado, humilde ou sábio que seja um homem, sente que a felicidade é um direito que ninguém lhe pode negar.
É curioso observar os diferentes ideais de felicidade que as pessoas alimentam e os lugares tão singulares onde procuram essa fonte da sua vida. Muitos procuram-na na acumulação de riquezas, alguns no orgulho do poder e outros nas conquistas da arte e da literatura; alguns poucos procuram-na na exploração da própria mente ou na busca do conhecimento.
A maioria das pessoas mede a sua felicidade em termos de prazer físico e de bens materiais. Se conseguissem alcançar algum objetivo visível que colocaram no horizonte, como seriam felizes! Se lhes faltasse este ou aquele bem, esta ou aquela circunstância, seriam infelizes. Se a felicidade tivesse de ser medida desta forma, eu, que não posso ouvir nem ver, teria todas as razões para me sentar num canto, de mãos cruzadas, e chorar.
Mas se sou feliz apesar das minhas limitações, se a minha felicidade é tão profunda que se transforma em fé, tão refletida que se torna uma filosofia de vida — se, em suma, sou uma otimista — então vale a pena escutar o meu testemunho a favor do otimismo. Tal como os pecadores se levantam numa assembleia e dão testemunho da bondade de Deus, também aquele que é considerado afligido pode erguer-se, cheio de alegria e convicção, e dar testemunho da bondade da vida.
Houve um tempo em que conheci a profundidade onde não existia esperança e em que a escuridão cobria o rosto de todas as coisas. Então chegou o amor e libertou a minha alma.
Houve um tempo em que conhecia apenas a escuridão e o silêncio. Agora conheço a esperança e a alegria.
Antes, inquietava-me e batia contra a parede que me encerrava. Agora alegro-me por saber que posso pensar, agir e alcançar o céu.
A minha vida não tinha passado nem futuro; a morte, diria o pessimista, seria «um fim ardentemente desejado». Mas uma pequena palavra, transmitida pelos dedos de outra pessoa, caiu na minha mão que se fechava sobre o vazio, e o meu coração saltou para o êxtase de estar viva.
A noite fugiu diante do dia do pensamento, e o amor, a alegria e a esperança surgiram numa paixão de entrega ao conhecimento.
Pode alguém que escapou a um cativeiro assim, que sentiu o arrepio e a glória da liberdade, ser pessimista?
Hellen Keller, in Optimism (1903)