SETEMBRO

JÁ IMAGINASTE... TUDO O QUE PODES FAZER

Intenção do Papa para este mês:
Pelo cuidado pela água

Esta gaivota que vai

Seguindo o navio.

Este céu que despreza a morte.

Esta luz, este rio.

 

Tudo num sonho que apenas

foi desenhado

para eu aprender de novo

a viver a teu lado.

 

Vento no rosto

e tanto sol nos meus braços

tanto sol que depois te cerca

a travar os teus passos.

 

Tudo num sonho

que foi assim desenhado

para tu começares de novo

a viver a meu lado.

 

Dentro de nós, temos nós

de seguir a lição

desta luz que a manhã

nos oferece novamente.

 

Dentro de nós vai o mundo

tornar-se canção

é preciso que tudo

comece novamente.

 

Tudo num sonho

que apenas foi desenhado

para eu aprender de novo

a viver a teu lado.

 

Tudo num sonho

que foi assim desenhado

para tu começares de novo

a viver a meu lado. 

 

David Mourão Ferreira e Nóbrega e Sousa

Respirar

(Calema e Sara Correia)

 

Sou que nem água solta no chão

Danço nas asas de um furacão

Esta é a minha casa, sigo o destino

Eu sou a estrada, eu sou, eu sou, eu sou

 

Viver da luz da vida e dar-lhe um nome

Fugir da confusão que nos consome

Não é preciso muito mais

Do que um minuto a olhar o céu e respirar

 

Respirar, eu vou, respirar, eu vou

Respirar, eu vou, peito aberto (eu vou)

Seja onde for, eu vou levar amor

No meu respirar

 

E se pensarmos

Que vivemos juntos este tanto com tão pouco

Pelas mãos do vento faz-se unir o mundo todo

O mesmo ar, a noite e o dia

 

Respirar, eu vou

Respirar, eu vou

 

Respirar, eu vou, respirar, eu vou

Respirar, eu vou, peito aberto

Seja onde for, eu vou levar amor

(No meu respirar)

 

Trazer todos os dias de manhã a melodia

E encher o nosso peito de amor no amanhecer, oh-oh

A vida deu-me tanto sem cobrar e eu nem sabia

Agora eu sei que para agradecer

 

Respirar, eu vou, respirar, eu vou

Respirar, eu vou, peito aberto, oh-oh

Seja onde for, eu vou levar amor

No meu respirar (eu vou, eu vou)

 

Fazer da paz uma morada, peito aberto

Ai, que boa vida, dançar este refrão a cada dia

Na vida, eu sou a estrada

Eu sou a estrada, eu sou a estrada…

 

Ouve aqui: https://www.youtube.com/watch?v=g4VqkkUqx4c

(…) Quero recomeçar, digo. Autorizo-me isso a mim próprio? Esse gesto cortante, novo, criador, esbarra com uma série de programas. Eu já não sou o programador, mas o programado, sou o plano de uma aplicação para mim; estão a correr uma série de funções onde eu só funciono, não sou. Em que botão recomeço?

Enquanto os outros se aplicavam em complicados desenhos, ele fez um círculo, um círculo apenas, pincel e vermelho sobre o branco, uma espécie de sangue. “É só isso?”, perguntou o homem. “É tudo o que é necessário”, respondeu o pintor. O círculo da minha vida, a multidão – a legião – de programas onde me aplicam: sou eu? Ou uma função de mim, útil a não sei quem quando ou quem quê, cerca a roda dos meus dias?

O homem agarrou nos elaborados desenhos feitos pelos outros pintores, e naquele desprezadamente no outro papel, o do círculo vermelho apenas. Levou-o ao Papa, que dentre todos escolheria um novo pintor para trabalhar em Roma.

Voltar já não serve. Listas de alterações, promessas secas num papel que não enviarei a mim mesmo, não. Voltar é voltar a, repetição. Há programas que fazem isso por mim. Quero ser eu a começar, a começar-me. Faço isso agora ou deixarei que o círculo feito por instrumentos de outros me cerque tanto até que me controle?

Ao ver o círculo, “uma maravilha a contemplar”, desenhado sem nenhum instrumento, o Papa não hesitou: era aquele pintor que queria. Ele mesmo: Giotto.

Cada minuto é meu; cada gesto é orgânico. Em cada respiração crio e levo para dentro de mim, entregando à origem, o ar que me deu. Eu sou eu próprio uma árvore: raízes na terra, pulmões da terra para o céu, braços para tocar no firmamento. Inspiro para deixar a minha marca, para trazer o infinito em cada inspiração, e devolvê-la nova ao ar vivo.

“Construir um eremitério portátil dentro de cada um de nós”, escrevia o imperador austríaco Francisco I. Quero encontrar aí o ponto onde eu começo. Onde eu desenho com o meu sangue o meu caminho; onde sou o co-criador de mim mesmo.

O pintor desenhou o seu início. Abriu o universo, entregou-o: e criou.

Deixa o mundo girar

(Pólo Norte)

 

Quantas vezes vais olhar para trás

estás preso a um passado que pesou

quantas vezes vais ser tu capaz

fazer sair quem por engano entrou

 

Abre a tua porta

não tenhas medo

tens o mundo inteiro

à espera para entrar

de sorriso no rosto

talvez o segredo

alguém que te quer falar

 

Olha em frente e diz-me

aquilo que vês

reflexos de quem conheces bem

ouve essa voz, é a tua voz

dá-lhe atenção e a razão que tens

 

Abre a tua porta

não tenhas medo

tens o mundo inteiro

à espera para entrar

de sorriso no rosto

talvez o segredo

alguém que te quer falar

 

Deixa o mundo girar para o lado que quer

não o podes parar nem tens nada a perder

estas de passagem,

não o leves a mal se te manda avançar

talvez seja o sinal que não podes parar

estás de passagem

 

Vai aonde queres

ser quem tu quiseres

estende a tua mão

a quem vier por bem,

 

Abre a tua porta

não tenhas medo

tens o mundo inteiro

à espera para entrar

de sorriso no rosto

talvez o segredo

alguém que te quer falar

 

Refrão

 

Só de passagem

estou de passagem

para outro lugar 

 

Ouve aqui:https://www.youtube.com/watch?v=TUft3kjd8Fk

Otimismo Interior

 

Se pudéssemos escolher o nosso ambiente e se, nos empreendimentos humanos, o desejo fosse sinónimo de capacidade, suponho que todos seríamos otimistas. Certamente, a maioria de nós considera a felicidade como o verdadeiro fim de tudo aquilo que fazemos nesta vida. A vontade de ser feliz anima igualmente o filósofo, o príncipe e o varredor de chaminés. Por mais limitado, humilde ou sábio que seja um homem, sente que a felicidade é um direito que ninguém lhe pode negar.

É curioso observar os diferentes ideais de felicidade que as pessoas alimentam e os lugares tão singulares onde procuram essa fonte da sua vida. Muitos procuram-na na acumulação de riquezas, alguns no orgulho do poder e outros nas conquistas da arte e da literatura; alguns poucos procuram-na na exploração da própria mente ou na busca do conhecimento.

A maioria das pessoas mede a sua felicidade em termos de prazer físico e de bens materiais. Se conseguissem alcançar algum objetivo visível que colocaram no horizonte, como seriam felizes! Se lhes faltasse este ou aquele bem, esta ou aquela circunstância, seriam infelizes. Se a felicidade tivesse de ser medida desta forma, eu, que não posso ouvir nem ver, teria todas as razões para me sentar num canto, de mãos cruzadas, e chorar.

Mas se sou feliz apesar das minhas limitações, se a minha felicidade é tão profunda que se transforma em fé, tão refletida que se torna uma filosofia de vida — se, em suma, sou uma otimista — então vale a pena escutar o meu testemunho a favor do otimismo. Tal como os pecadores se levantam numa assembleia e dão testemunho da bondade de Deus, também aquele que é considerado afligido pode erguer-se, cheio de alegria e convicção, e dar testemunho da bondade da vida.

Houve um tempo em que conheci a profundidade onde não existia esperança e em que a escuridão cobria o rosto de todas as coisas. Então chegou o amor e libertou a minha alma.

Houve um tempo em que conhecia apenas a escuridão e o silêncio. Agora conheço a esperança e a alegria.

Antes, inquietava-me e batia contra a parede que me encerrava. Agora alegro-me por saber que posso pensar, agir e alcançar o céu.

A minha vida não tinha passado nem futuro; a morte, diria o pessimista, seria «um fim ardentemente desejado». Mas uma pequena palavra, transmitida pelos dedos de outra pessoa, caiu na minha mão que se fechava sobre o vazio, e o meu coração saltou para o êxtase de estar viva.

A noite fugiu diante do dia do pensamento, e o amor, a alegria e a esperança surgiram numa paixão de entrega ao conhecimento.

Pode alguém que escapou a um cativeiro assim, que sentiu o arrepio e a glória da liberdade, ser pessimista?

 

Hellen Keller, in Optimism (1903)