Bom Dia Maristas

JANEIRO

SORRI DE CORAÇÃO

Eu tinha a certeza que seria morto. Fiquei terrivelmente nervoso e perturbado. Remexi nos bolsos para ver se havia algum cigarro que tivesse escapado da busca. Encontrei um, mas por causa das minhas mãos trémulas mal consegui levá-lo aos lábios. Mas eu não tinha fósforos, eles levaram-nos.

Olhei através das grades para o meu carcereiro. Não fez contacto visual comigo. Afinal, não se faz contacto visual com uma coisa, um cadáver. Eu gritei-lhe ‘Você tem uma luz, por favor?’. Ele olhou para mim, deu de ombros e veio acender-me o cigarro.

Quando se aproximou e acendeu o fósforo, os seus olhos prenderam-se aos meus de forma inadvertida. Naquele momento, sorri. Não sei porque o fiz. Talvez fosse nervosismo, talvez fosse porque, quando chegamos muito perto uns dos outros, é muito difícil não sorrir. De qualquer forma, sorri. Naquele instante, foi como se uma faísca saltasse através do espaço entre os nossos dois corações, as nossas duas almas humanas. Eu sei que ele não queria, mas o meu sorriso saltou através das barras e também gerou um sorriso nos seus lábios. Acendeu-me o cigarro, mas ficou por perto, olhando-me diretamente nos olhos e continuando a sorrir.

Continuei a sorrir-lhe, agora vendo que estava perante uma pessoa e não apenas diante do meu carcereiro. O seu olhar parecia ter uma nova dimensão. ‘Você tem filhos?’, perguntou. ‘Sim, aqui, aqui’. Peguei na minha carteira e nervosos procurei as fotos da minha família. Ele também tirou as fotos dos seus filhos e começou a falar sobre os planos e desejos que tinha para eles. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Disse que temia nunca mais ver a minha família, de não ter a chance de os ver crescer. As lágrimas também lhe vieram aos olhos.

De repente, sem mais palavras, abriu a cela e silenciosamente levou-me dali para fora. Para fora da cadeia, em silêncio; para fora da cidade! Então lá, na periferia da cidade, soltou-me. E sem proferir palavra que fosse, voltou para a cidade. A minha vida foi salva por um sorriso.

 
Antoine de Saint-Exupery, “O Sorriso”

O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura.

 

Papa Francisco, in “A Alegria do Evangelho”

Este seu olhar quando encontra o meu

Fala de umas coisas

Que eu não posso acreditar

Doce é sonhar, é pensar que você

Gosta de mim como eu de você

 

Mas a ilusão quando se desfaz

Dói no coração de quem sonhou

Sonhou demais, ah! se eu pudesse entender

O que dizem os seus olhos

 

António Carlos Jobim, 1959 – https://youtu.be/SmfdE5E3S44

Depois de contemplar Maria, posso explorar no interior de meu coração como estão minha sede e meu desejo de Deus. Olhar se meu coração conecta no íntimo com a presença de Deus que me habita. Descobrir se desejo libertar-me de tantas ataduras que me paralisam, que não me deixam avançar e que me impedem acolher a novidade e a mudança. Se possuo um coração aberto para atender às necessidades dos demais e disposto a servir sem medida. (…)

Sentimos a alegria profunda própria de um coração agradecido. Brotam a confiança, a paz, a beleza e, sobretudo a misericórdia, a compreensão para comigo mesmo e para com os demais. Acolhemos e oferecemos o perdão. Damos sentido ao que vivemos. Surge a paixão por um Deus vivo e de entregar-nos a Ele servindo generosamente aos demais.


Ir. Ernesto Sánchez, in “Lares de Luz”

O venerável Carlos Acutis (…) não caiu na armadilha. Via que muitos jovens, embora parecendo diferentes, na verdade acabam por ser iguais aos outros, correndo atrás do que os poderosos lhes impõem através dos mecanismos de consumo e aturdimento. Assim, não deixam brotar os dons que o Senhor lhes deu, não colocam à disposição deste mundo as capacidades tão pessoais e únicas que Deus semeou em cada um. Na verdade, «todos nascem – dizia Carlos – como originais, mas muitos morrem como fotocópias». Não deixes que isto te aconteça! Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para te usar como escravo dos seus interesses. Ousa ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa; não precisas de ter nem de parecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és, se reconheceres o muito a que estás chamado. Invoca o Espírito Santo e caminha, confiante, para a grande meta: a santidade. Assim, não serás uma fotocópia; serás plenamente tu mesmo.


Papa Francisco, in Christus Vivit (105-107)

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz;

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver discórdia, que eu leve a união;

Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;

Onde houver erros, que eu leve a verdade;

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;

Onde houver desespero, que eu leve a esperança;

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;

Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei com que eu procure mais consolar,

que ser consolado;

Compreender, que ser compreendido;

Amar, que ser amado;

Pois é dando que se recebe;

É perdoando, que se é perdoado;

E é morrendo que se vive para a vida eterna. 

 

S. Francisco de Assis