Muitas pessoas educadas e sofisticada não estão dispostas a sujeitar-se a um conhecimento indireto, subversivo e intuitivo, e é provavelmente por esse motivo que dependem demasiado de leis externas e comportamentos rituais para atingir os seus objetivos espirituais. A verdade intuitiva, aquele instinto interior que busca a totalidade, parece-se demasiado com os nossos próprios pensamentos e sentimentos, e a maior parte de nós não está disposta a dar-lhe o nome de «Deus», mesmo quando esta voz nos incita à compaixão em vez do ódio, ao perdão em vez do ressentimento, à generosidade em vez da avareza, à magnanimidade em vez da mesquinhez. Mas pensa nisto: se a encarnação é verdadeira, é óbvio que Deus fala através dos nossos próprios pensamentos! Como disse Joana d’Arc quando o juiz a acusou de ser vítima da própria imaginação, «como é que Deus ia falar comigo de outra maneira?»
De acordo com um antigo midrash, cada pessoa vem ao mundo com uma pequena chama acesa sobre a cabeça. Cada vez que uma pessoa se encontra com outra, as chamas fundem-se e ficam com mais luz e vitalidade. Mas quando uma pessoa vive poucos encontros, a sua pequena chama sofre e definha. E se a pessoa não se encontra com ninguém, essa chama pouco a pouco apaga-se. O que é que vais fazer com tua pequena chama? Podemos contigo para a maravilhosa revolução da ternura?
“Fourvière: a revolução da ternura” Ir. Emili Turu
Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. É preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído; embora muitas vezes nos vejamos imersos e condenados a repetir a lógica dos violentos, de quantos nutrem ambições só para si mesmos, espalhando confusão e mentira. Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom, e coloquemo-nos ao serviço do bem.
Um coração que escuta, medita, pondera e discerne é o lugar idóneo onde brota a luz e, em consequência, a deixa transparecer. Num coração assim, surge a capacidade de diminuir o próprio ego porque se dá maior espaço à presença de Deus. Assim imagino Maria, no dia a dia, uma mulher com coração pacificado, dedicada às tarefas ordinárias, tratando as pessoas com delicadeza e estando atenta para ajudar nas suas necessidades. Imagino-a junto com José, Jesus, construindo a casa, um lar de luz. Imagino-a também estando atenta nos momentos de dificuldade, suavizando os possíveis atritos que apareciam de vez em quando na própria família ou entre as pessoas vizinhas. O seu rosto afável, o seu sorriso, as suas atitudes, as suas palavras, a sua paciência… em tudo isto transparecia a luz que lhe vinha do interior e que a nutria continuamente: a luz do próprio Deus, de onde nasce a entrega, o serviço, a gratuidade, a amabilidade e a paz.