Bom Dia Maristas

MARÇO

ENTRA EM TUA CASA

Uma grande viagem começa por um só passo: Onde é a nossa casa?

Acho que foi Albert Camus que disse que a questão mais premente do nosso tempo é cada homem descobrir onde é a sua casa. Aparentemente é uma ideia estranha, pois a maior parte de nós não tem que se perguntar para onde deve voltar ao crepúsculo. 

(…)

Que quereria dizer Camus quando escreveu: «cada homem tem de descobrir a sua casa»? Penso que a frase longa esconde este repto mais essencial: cada pessoa não tem apenas a tarefa de descobrir uma habitação. Cada pessoa tem o irrecusável dever de descobrir-se, vivendo com paixão e sabedoria a construção de si, esse processo que, por definição, está em aberto e que ao longo da existência se vai efetivando. Nós somos a nossa casa. E poder dizer isso, com simplicidade e verdade, equivale a perpetuar aquilo que Albert Camus também escreveu: «no meio de um inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível».

 

José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias (06.12.10)

Nem sempre a vida nos ensina a ter a capacidade de olhar para o que se passa dentro de nós. Habituados a olhar para o que se passa do (nosso) lado de fora, podemos desenvolver um analfabetismo profundo sobre as emoções, os sentimentos e os pensamentos que nos ocupam o coração, a mente e o espírito.

No entanto, vamos caminhando iludidos pela vida fora. Impedimo-nos de contemplar o universo interior que temos e, por consequência, não nos deixamos lidar com o que se passa connosco. Seja isso o que for.

Neste tempo de maior reflexão, espera e jejum em que nos encontramos, talvez valha a pena o desafio de abraçar (em nós) o que ainda não tivemos coragem para ver.

Para alguns de nós esse abraço vai encontrar raiva que nos vai dar pontapés e gritar: “sai daqui”!

Para outros, esse encontro vai trazer uma alegria de criança pequena que só sabe brincar e ser feliz.

Para outros poderá trazer uma tristeza velha que nem se sabe de onde vem.

Para outros um cansaço de viver à sombra das aparências e do tanto que fingimos que somos.

Para outros será um abraço de risos, gargalhadas e coisas tontas.

Seja o que for que encontremos, que saibamos dispor-nos a ver. A querer ver o que é. Mais do que nos orientarmos para resolver o que acontece dentro de nós, que saibamos encontrar tempo e espaço para não tocar. Para ver como sagrado o que vier, chegar ou aparecer. Nem tudo se resolve, nem tudo se aprende e nem tudo se cura. E está tudo bem. É mesmo assim que as coisas podem ser.

O caminho é longe. E é longo. A vida pode trazer-nos complicações e desafios difíceis de superar ou ultrapassar. Mas não te preocupes: estamos juntos nessa mesma luta. Nesse mesmo mistério.

O truque é subir um degrau de cada vez. Só assim podemos subir as escadas. 

 

Marta Arrais, retirado de www.imissio.net

Vou construir uma casa,

onde cabemos todos,

com tijolos de esperança,

e que tenha muita luz.


Vou fabricar uma casa

onde entramos todos,

com janelas embaciadas,

porque dentro está calor


Em casa sempre sabemos 

quando há alguém que não está bem,

nesta casa queremo-nos,

e ajudamo-nos a crescer…


Estás em casa

este é o teu sítio

abre as janelas que entre o sol

estás em casa

aqui não faz frio

somos família e calor.


Vou construir uma casa,

e há sítio para todos,

partilhamos a nossa manta,

e estou muito feliz.


Vou levantar esta casa,

uma casa para todos,

entra sem tocar, anda, passa,

portas abertas de par em par.


Nesta casa cuidamo-nos,

e iluminamos quem mais precisa,

nesta casa há muito espaço,

onde cabem dois – cabe um milhão.


Hino do Lema Marista do Ano 2023-2024

(…) Vós não estais aqui por acaso. O Senhor chamou-vos, não só nestes dias, mas desde o início dos vossos dias. Chamou-nos a todos, desde o início da vida.

(…) Chamados pelo nome: tentai imaginar estas três palavras escritas em letras grandes e, em seguida, pensai que estão escritas dentro de vós, nos vossos corações, como que formando o título da vossa vida, o sentido daquilo que sois. Tu foste chamado pelo teu nome: tu… além, tu… ali, tu… aqui, e também eu, todos nós fomos chamados pelo próprio nome. 

(…) Ao princípio da teia da vida, ainda antes dos talentos que possuímos, antes das sombras, das feridas que trazemos dentro de nós, recebemos um chamamento. Fomos chamados, porquê? Porque amados. Fomos chamados, porque somos amados. É belo! Aos olhos de Deus somos filhos preciosos, que Ele cada dia chama para abraçar, para encorajar; para fazer de cada um de nós uma obra-prima única, original. Cada um de nós é único e original, e não chegamos sequer a vislumbrar a beleza de tudo isto.

 (…) Somos amados como somos, sem maquilhagem. Compreendeis isto? (…) Pensemos um pouco nisto, em nosso coração: somos chamados como somos, com os problemas que temos, com as limitações que temos, com a nossa alegria transbordante, com a nossa vontade de sermos melhores, com a nossa vontade de vencer. Somos chamados como somos. Pensai nisto: Jesus chama-me como eu sou, não como eu gostaria de ser. 

 

Papa Francisco, Cerimónia de Abertura da JMJ, Lisboa, 3 Agosto 2023

Uma vez pediram a um peixe para falar do mar.

– Fala-nos do mar – disseram-lhe.

– Dizem que é muito grande o mar, respondeu o peixe. Dizem que sem ele morreríamos.  Não sou o peixe mais indicado para vos falar do mar. Eu, do mar, o que conheço bem são só estes dez metros à superfície. É só deles que vos posso falar. É aqui que passo o meu tempo, quase sempre distraído. Ando de um lado para o outro, à procura de comida ou simplesmente às voltas com o meu cardume. No meu cardume não se fala do mar. Fala-se das algas, das rochas, das marés, dos peixes grandes e perigosos, dos peixes pequenos e saborosos e de que temperatura fará amanhã. O meu cardume é assim: eles vão e eu vou atrás deles.

– Mas tu, que és peixe, nunca sentiste o mar?

– Creio que o sinto, às vezes, ao passar-me nas guelras. Umas vezes sinto-o, outras não. Às vezes sinto-o, quando não me distraio com outras coisas. Fecho os olhos e fico a sentir o mar. Isto tudo de noite, claro, para que os outros não vejam. Diriam que sou louco por dar tempo ao mar.

– Conheces o mar, portanto. Podes falar-nos do mar?

– Sei que é grande e profundo, mas não vos quero enganar. Sei de peixes que já desceram ao fundo do mar. Quando os ouvi falar percebi que não conheço o mar. Perguntem-lhes a eles, que vos saberão falar do mar. Eu nunca desci muito fundo. Bem, talvez uma ou duas vezes… Um dia as ondas eram tão fortes que eu tive de me deixar levar muito fundo, para não morrer. Nunca lá tinha estado e nunca esquecerei que lá estive. Apenas vos sei falar bem da superfície do mar… 

– Foi mau, quando desceste? Por que voltaste à superfície?

– Não foi mau. Foi muito bom. Havia muita paz, muito silêncio. Era como se fosse lá a minha casa, como se ali eu estivesse inteiro. 

– Por que não voltaste lá ao fundo? Por preguiça?

– Às vezes acho que é preguiça, outras vezes acho que é medo.

– Medo? Mas tu não disseste que era bom? Medo de quê?

– Medo do desconhecido, medo de me perder. Aqui à superfície já estou habituado. Adquiri um certo estatuto para mim mesmo. Controlo as coisas ou, pelo menos, tenho a sensação de as controlar. Lá em baixo não sei bem o que me pode acontecer. Estou todo nas mãos do mar.

– Tiveste medo, quando chegaste ao fundo do mar?

– Não tive medo algum. Era tudo muito simples… E, no entanto, agora tenho medo… Mas eu não cheguei ao fundo do mar! Apenas estive menos à superfície.

– E que dizem os outros, os que lá estiveram?

– Dizem coisas que eu não entendo. Dizem que é preciso ir para perceber. E dizem que nada há de mais importante na vida de um peixe.

– E explicaram como se vai?

– Aí é que está. Explicam que não se chega lá por esforço, que só podemos fazer esforço em deixar-nos ir. Que é só o mar que nos leva ao mar.

Então veio uma corrente mais forte que o fazia descer. O peixe tentou lutar contra ela com quantas forças tinha, à medida que via distanciarem-se as coisas da superfície. Talvez para sempre… Mas depois fechou os olhos, confiou e já sem medo deixou-se ir.

 

Pe. Nuno Tovar de Lemos, in “O Príncipe e a Lavadeira”