As pessoas são tão diferentes. Aprecio muito que o sejam. Fico a pensar se me acharão diferente. Adoraria que achassem. Ser tudo igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture.
Eu sou a favor de uma meia de cada cor. Adoro cores. A minha mãe diz: organiza. Julga que eu baralho demasiado.
Às vezes, fico horas a arrumar o meu quarto. Cansa, mas gosto do resultado final. Queria muito acreditar em fadas que nos mantivessem os trabalhos chatos sempre feitos. Mas isso não acontece. Para ser menos chato, eu canto no trabalho. Chego a ficar rouca, das horas e da falta de afinação. Sou, enquanto cantora, prima das cacatuas. Não me importo. Ainda assim, eu canto. Adoro cantar.
A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela ação do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a Fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no mesmo Espírito, a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.
(Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios 12, 7-11)
A nossas vidas são um recetáculo do dom. Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso – a própria existência – e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos e experiência de que somos protegidos e amados.
Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), percebemos que somos, em muitos sentidos, uma obra dos outros. Todos somos. A nossa história começou antes de nós. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, gestos, boas vontades, sementeiras, afetos.
Esse movimento – sabemo-lo bem – não tem preço, nem se compra em parte alguma.
(Cardeal José Tolentino Mendonça, in O pequeno caminho das grandes perguntas)