Bom Dia Maristas

FEVEREIRO

A CASA É COMUM

“Cuide do que é seu”, é uma expressão que ouvimos muitas vezes, mas enquanto cristãos deveríamos assumir a necessidade de cuidar do que é de todos, do que é comum.

Para isso, é urgente entrar num caminho de conversão, que nos leve a sair de nós mesmos e a ter um olhar maior, um olhar divino, que nos faz deixar para trás nossa mesquinhez humana, que nos leva a nos encerrarmos dentro de nós mesmos, a fomentar atitudes individualistas que nos afastam de quem nos rodeia.

O cuidado é um chamado que aparece na Laudato Si´ mais de 30 vezes, mas desde o início da Encíclica de Francisco, inspirada em outro Francisco, nos faz ver que esse cuidado diz respeito àquilo que é comum a todos: a Casa Comum. Cuidar do que é frágil.

A realidade planetária mostra-nos que esse cuidado é cada vez mais urgente. Sete anos depois da encíclica Laudato Si’, vemos que, longe de melhorar, no que diz respeito ao cuidado da casa comum, a situação foi piorando, que a nossa Casa está cada vez mais fragilizada. Não aprendemos, mesmo diante de catástrofes naturais cada vez mais frequentes, de fenómenos climáticos a cada dia mais extremos, que atingem sobretudo aos mais pobres, pois “o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS 49) é o mesmo, são eles os que mais sofrem as consequências dessa falta de cuidado, que tanta dor provoca no Planeta e na humanidade.

Um cuidado que aprendemos com Deus, na medida em que assumimos que somos os Seus instrumentos, que “todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades” (LS 14). Fomentar essa cultura do cuidado deveria ser um empenho na nossa sociedade (…).

Um cuidado que tem de ser a nível global, planetário, mas também em nível local, onde cada um vive, assumindo a conversão ecológica, um chamado decisivo na preservação da casa comum. Um cuidado que “interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder” (LS 78). Não podemos esquecer que fazemos parte de um mundo frágil, e somos nós, os seres humanos, a quem Deus confia o cuidado do mesmo.

 

Padre Modino, retirado de https://www.vaticannews.va/pt/ 

Hoje, o mundo está cheio de exclusões e de intolerâncias. Há minorias não têm direito a falar ou mesmo a existir. Em muitos países, nem se pode praticar a religião que se entender. Há muitas pessoas que não podem exprimir livremente as suas ideias. Cada grupo quer impor a sua maneira de ver e afastar quem pense diferente. Por vezes até mesmo dentro da Igreja. Por vezes até mesmo dentro dos nossos corações.

Tu, Senhor, foste vítima da intolerância. Mas não Te deixaste tomar pelo ódio. E por isso podes ser ponte entre todos. Ensina-nos a ser construtores de pontes onde quer que estejamos.

 

Via Sacra da JMJ 2023 Lisboa

Quando chega a hora de olharmos para a casa de dentro tudo se descompõe. O que estava desarrumado, desarrumado fica. O que está por amar, por amar fica. O que precisa de ser intervencionado, amputado fica.

Vivemos uma vida profundamente incompleta e nem nos apercebemos. Dedicamo-nos a uma causa com as entranhas acesas e nem duvidamos. Apostamos as fichas todas no cuidado de quem mora connosco, mas não sabemos cuidar da nossa casa. Do nosso coração. Da nossa alma.

Não vale passar a vida a cuidar dos outros se não soubermos olhar para o que precisamos. Às vezes só precisamos de um copo de água. Ou da alma lavada com a água fria de quem sabe ver e olhar para dentro. Outras vezes precisamos de não estar sozinhos. De ser amados. De ser vistos. De ser respeitados. De que nos digam que estamos no caminho certo. De que nos digam que estamos a fazer o melhor que podemos. Mas a primeira pessoa que deve dizer todas essas palavras-consolo somos nós próprios. Porque enquanto formos órfãos de nós, nunca teremos paz ou pão.

Que nos seja cada vez mais fácil olhar para nós como olhamos para os outros. Que a esperança que depositamos naquilo em que acreditamos nos seja estendida. Que o amor que dedicamos aos nossos seja alargado ao que mora, tantas vezes errante, dentro de nós.

Não te esqueças de ti.

Marta Arrais, retirado de https://www.imissio.net/artigos/49/5287/a-minha-casa-e-o-meu-coracao/

Também nós nos interrogamos como será o nosso futuro neste planeta. Assistimos ao consumo descontrolado dos recursos da terra, à extinção de espécies, à devastação de florestas. Assistimos assustados às alterações climáticas e sentimo-nos muito inseguros em relação ao futuro. E tudo isto associado a estilos de vida desequilibrados que fazem com que alguns morram à fome enquanto outros

fiquem doentes por comerem demais. 

Senhor, ensina-nos a ter estilos de vida mais simples, mais solidários, mais conscientes das consequências, mais próximos do essencial. Mais parecidos contigo.


Via Sacra da JMJ 2023 Lisboa

Uma só pessoa pode mudar o mundo. A verdade e a bondade escasseiam de tal modo que alguém vertical é, por si só, uma referência na História. Todos conhecemos alguém cuja vida é uma fonte de inspiração.

Não nascemos para ficar deitados, para rastejar ou para nos arrastarmos. Nascemos para que, mesmo se tivermos os pés na lama, nos ergamos e levantemos a cabeça até ao Céu. Para sermos verticais.

Também os nossos braços não servem para ficar caídos ou a pedir, mas para se abrirem a quem neles se puder abrigar. Protegendo com o peito aqueles que sofrem, aqueles que precisam, aqueles que foram magoados.

Há uma paz enorme que nasce no coração dos que lutam do lado certo da guerra ao sofrimento e à injustiça. Os que entregam a sua vida aos outros têm o Céu hoje mesmo.

Quando me elevo ergo os que quero e trago comigo. O sentido da minha vida está em mudar o mundo. Mudar o meu mundo, o mundo dos meus e depois o mundo de todos. 

O mundo muda-se. Num gesto de cada vez.

 

José Luís Nunes e Pilar Sousa Lara, in “Sermões ao Minuto”