Bom Dia Maristas

OUTUBRO

TODOS ESTAMOS EM CASA

A CASA E O NOME

 

Certa vez,

um menino fez uma casa.

Não sabia

Quem haveria de morar nela.

Mas fez a casa.

Vieram formigas e ocuparam-na.

Veio uma árvore para morar na casa.

Vieram nuvens e na casa fizeram morada.

E o menino olhou o céu

como se antes não houvesse luz nem astros.

Surpreso

de tanta existência,

o menino deitou-se no sono

como quem dá sombra à própria vida

De tudo e de todos,

a moradia fez-se povoar.

Mas nunca ele se sentiu repleto.

Aprendeu então

que casa não é coisa para ter mas para ser.

 

(Mia Couto, Vagas e lumes)

 
 

As pessoas são tão diferentes. Aprecio muito que o sejam. Fico a pensar se me acharão diferente. Adoraria que achassem. Ser tudo igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture. 

Eu sou a favor de uma meia de cada cor. Adoro cores. A minha mãe diz: organiza. Julga que eu baralho demasiado.

Às vezes, fico horas a arrumar o meu quarto. Cansa, mas gosto do resultado final. Queria muito acreditar em fadas que nos mantivessem os trabalhos chatos sempre feitos. Mas isso não acontece. Para ser menos chato, eu canto no trabalho. Chego a ficar rouca, das horas e da falta de afinação. Sou, enquanto cantora, prima das cacatuas. Não me importo. Ainda assim, eu canto. Adoro cantar. 

 

(Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros)

A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela ação do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a Fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no mesmo Espírito, a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. 

 

(Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios 12, 7-11) 

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

 

(Jorge Luís Borges, in Os Justos)

Um dia teve de ir visitar um doente: João Baptista Montagne, um adolescente que nunca tinha ouvido falar de Deus.

Depois de estar com ele duas horas tentando explicar-lhe que Deus é um bom Pai, Marcelino retirou-se.

O jovem morreu nessa mesma tarde.

Nesse dia, Marcelino decidiu fundar os Pequenos Irmãos de Maria.

Era o dia 28 de Outubro de 1816.

 

(Ir. Frederico-Andrés, in Pai de Irmãos

Protegidos e amados

A nossas vidas são um recetáculo do dom. Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso – a própria existência – e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos e experiência de que somos protegidos e amados.

Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), percebemos que somos, em muitos sentidos, uma obra dos outros. Todos somos. A nossa história começou antes de nós. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, gestos, boas vontades, sementeiras, afetos.

Esse movimento – sabemo-lo bem – não tem preço, nem se compra em parte alguma.

 

(Cardeal José Tolentino Mendonça, in O pequeno caminho das grandes perguntas)