Bom Dia Maristas

FEVEREIRO

TEMOS MUITO A DIZER

Tinham as mãos atadas, ou algemadas e, no entanto, os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados, mas, inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, um bocadinho, por baixo. Mesmo que falar fosse proibido, eles conversavam com as mãos.

Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em calabouços solitários, do tamanho de um caixão, sem ouvirem outras vozes além do estrépito das grades ou dos passos das botas pelos corredores. (…) E condenados a essa solidão, salvaram-se porque conseguiram falar-se, com pancadinhas, através da parede. Assim contavam um ao outro sonhos e lembranças, amores e desamores; partilhavam certezas e belezas, também dúvidas e culpas e perguntas daquelas que não têm resposta.

Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, não há quem detenha a voz humana. Se lhe negam a boca, ela fala com as mãos, ou com os olhos, ou com os poros, ou com o que quer que seja. Porque todos, todos, temos alguma coisa que dizer aos outros, alguma coisa que merece ser pelos outros celebrada ou perdoada.

 

Eduardo Galeano, Celebração da voz humana, in “O Livro dos Abraços”

Minha filha:

Vinhas dos teus primeiros dias de escola. Entraste em casa e dirigiste-te para a mesa da sala para cumprir os deveres de casa. Surpreendeu-me a tua apressada determinação. Apertaste o lápis entre os teus pequenos dedos e a tua mão era a minha, tão minha que compareciam naquele gesto, tão novo e tão medido, os nossos antigos e infinitos parentes.

Até aquele momento, o mais que havias feito era desenhar e colorir bichos e flores, sóis e céus. Era como se infância a si mesma se alinhavasse. Mas agora, ao rabiscares o caderno escolar, o teu gesto ganhava peso, outra gravidade.

Começo por confessar um segredo: a escrita é um rio. As vogais são água. As consoantes são pedras. A escrita é um rio antigo, que se inunda de gente. E o alfabeto é um barco. A maioria das pessoas nunca viajou nesse barco.

Outra confidência: a caligrafia é uma lição de humildade. Não pode haver vaidade no alfabeto. A letra que, nesta frase, é maiúscula, na frase seguinte, já desceu do pedestal. Somos como as letras: o tamanho que temos depende dos outros que, juntos connosco, costuram as frases.

 

Mia Couto, Lição de caligrafia, in “Compêndio para desenterrar nuvens” (adaptado)

Jesus chama-nos a atenção de que cada árvore se conhece pelo seu fruto (cf. Lc 6, 44). De igual modo «o homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o que é bom; e o mau, do mau tesouro, tira o que é mau; pois a boca fala da abundância do coração» (6, 45). Por conseguinte, para se poder comunicar testemunhando a verdade no amor, é preciso purificar o próprio coração. Só ouvindo e falando com o coração puro é que podemos ver para além das aparências, superando o rumor confuso que, mesmo no campo da informação, não nos ajuda a fazer o discernimento na complexidade do mundo em que vivemos. Então pode ter lugar o milagre do encontro, que nos faz olhar uns para os outros com compaixão, acolhendo as fragilidades recíprocas com respeito, em vez de julgar a partir dos boatos semeando discórdia e divisões.

 

Papa Francisco, in Mensagem para o LVII Dia Mundial das Comunicações Sociais  (21 de maio de 2023)

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que um dia mágico chora a sorte de repente, chora a sorte a cântaros; mas a sorte não chove nem ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu por mais que os zés-ninguém a chamem.

Os zés-ninguém: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os zés-ninguém: os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida.

Que não são, embora sejam.

Que não falam línguas, mas dialetos.

Que não são seres humanos, mas recursos humanos.

Que não têm cara, mas braços.

Que não têm nome, mas número.

Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.

 

Eduardo Galeano, in “Os Zés-Ninguém” (adaptado)

Há pessoas que conversam comigo com o propósito único de se ouvirem a elas próprias. É como se fosse um segredo só delas, mas que toda a gente sabe. Como uma conversa ao espelho, mas com outro alguém a fazer de reflexo. Tantas palavras para uma boca, a saírem encavalitadas, todas coladas umas às outras, quase parecem uma só, cheias de pressa para que uma respiração não chegue a parecer uma passagem de testemunho a quem está de frente para esta trovoada. (…)

A falta que faz um árbitro de conversas que vá assinalando faltas e foras-de-jogo, e que dê tempo extra no final, para nenhum dos lados sair prejudicado. Ganhávamos todos, a começar pelas palavras, que deixavam de ter gravidade zero e iam ganhando peso, até conseguirem fazer ninho em quem as está a ouvir.


Bruno Nogueira, Gosto muito de me ouvir falar, ouves-me?, in “Aqui dentro faz muito barulho”