O cuidado requer, como tudo na vida, uma aprendizagem. Mas é um dado universal: todos podemos aprender. O cuidado não é apenas uma espécie de técnica de manutenção. Certamente há uma dimensão técnica importante no cuidado, mas ele não se realiza humanamente sem a escuta, o reconhecimento do outro, a empatia, a solicitude, a participação ou a delicadeza. No princípio do cuidado está a ativação da nossa responsabilidade pelo outro. Como no seu oposto está a indiferença, o abandono ou o descarte.
Cardeal Tolentino Mendonça in “Cuidar da vida frágil”
https://www.imissio.net/artigos/53/3944/cuidar-da-vida-fragil-por-tolentino-mendonca/
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado…
In “Poemas de Alberto Caeiro” de Fernando Pessoa
E Maria é construída com três grandes traços perfeitamente admiráveis:
Primeiro, Maria é uma mulher da escuta. Ela não está desligada. Ela vive numa porosidade, ela deixa-se visitar, no coração dela e na vida dela ela tem as portas abertas. Às vezes vivemos uma vida autista, completamente desligada, vivemos na nossa cápsula, no nosso mundo. Nem um anjo de Deus pode visitar-nos. Estamos cegos e surdos ao que quer que seja, queremos lá saber, queremos lá ver. (…)
Depois, Maria é de uma honestidade a toda a prova, a toda a prova. Às vezes nós falseamos, quer dizer, sabemos um bocado cinicamente que aquilo não é bem assim, (…). Quando o anjo lhe diz: “Ave. O Senhor está contigo.” Ela fica a pensar: “Mas o que será isto? O que será isto?” E quando o anjo lhe anuncia o que vai acontecer, ela pergunta: “Como é que isso pode ser, se eu não conheço homem?” Honestidade, honestidade. Porque Deus não falseia, não é um ornamento para a nossa humanidade. Não. Nós temos de ser salvos com verdade, com a nossa verdade, e é importante fazer perguntas a Deus. (…)
Por fim, Maria descobre neste encontro com o anjo que a sua vida está ao serviço de uma vida maior, de um projeto maior. Isto é, que a vida não começa e acaba nela, não começa e acaba nos sonhos que ela teve para a sua vida, nos desejos que ela teve, com certeza, no coração de rapariga sonhadora que ela era. A vida não acaba no perímetro dos desejos e dos sonhos que ela fez de felicidade para a sua vida. Mas o Senhor chama-a a colocar-se ao serviço de uma felicidade maior, imprevista, com a qual ela não tinha nunca sonhado, nem poderia sonhar. Mas o Senhor diz: “Olha, a tua vida é para servir uma vida maior, para servir uma coisa maior.” E Maria diz: ”Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra.
Cardeal José Tolentino Mendonça
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.(…)
Fernando Pessoa
Cada um de nós deve sentir-se, de alguma forma, responsável pela devastação a que a nossa casa comum está sujeita, a começar pelas ações que, mesmo indiretamente, alimentam os conflitos que assolam a humanidade. Assim, fomentam-se e entrelaçam-se os desafios sistémicos, distintos mas interligados, que afligem o nosso planeta. Refiro-me, em particular, às desigualdades de todos os tipos, ao tratamento desumano dispensado aos migrantes, à degradação ambiental, à confusão gerada intencionalmente pela desinformação, à rejeição a qualquer tipo de diálogo e ao financiamento ostensivo da indústria militar. Todos estes são fatores de uma ameaça real à existência de toda a humanidade. No início deste ano, portanto, queremos escutar este grito da humanidade para nos sentirmos chamados, todos nós, juntos e de modo pessoal, a quebrar as correntes da injustiça para proclamar a justiça de Deus. Alguns atos esporádicos de filantropia não serão suficientes. Em vez disso, são necessárias transformações culturais e estruturais, para que possa haver também uma mudança duradoura.
Papa Francisco, in Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2025